sábado, 17 de junho de 2017

‘The Big Combo’: Um clássico ‘Noir’ com os elementos essenciais do ‘estilo’: Crimes, corrupção, escuridão, amor e traição! – Marcos Doniseti!

‘The Big Combo’: Um clássico ‘Noir’ com os elementos essenciais do ‘estilo’: Crimes, corrupção, escuridão, amor e traição! – Marcos Doniseti!
'The Big Combo' é um dos principais clássicos do 'Noir'. A fotografia do filme é marcante. O filme tem muitos fãs, incluindo Quentin Tarantino, que o homenageou em 'Cães de Aluguel'. 
‘The Big Combo’ foi realizado em 1955 e é um dos grandes clássicos do chamado filme ‘Noir’, um estilo ou gênero cinematográfico que até hoje possui milhões de fãs e admiradores em todo o mundo. 

O filme ‘Noir’ é debatido exaustivamente até os dias atuais, sendo que muitos estudiosos chegam a dizer que ele sequer existiu. A expressão foi criada por um crítico francês (Nino Frank) em 1946, cinco anos após a produção dos primeiros filmes do ‘gênero’, quando vários filmes policiais dos EUA foram exibidos na França. 

Os críticos franceses entendiam que tais filmes possuíam algumas características comuns, passando a considerar que eles constituíam um estilo diferente de filme Policial, ao qual chamaram de ‘film Noir’. 

Apesar das críticas, o uso da expressão ‘film Noir’ acabou sendo assimilada e é utilizada até hoje para classificar ou definir um determinado número de filmes policiais que foram produzidos entre 1941 e 1958, quando tivemos o auge do ‘gênero’. 
A escuridão é muito presente no filme, o que é resultado da forte influência que os filmes Noir sofreram do cinema Expressionista alemão. A maioria das cenas foi feita em ambientes com pouquíssima iluminação. O responsável pela bela fotografia do filme foi John Alton, que trabalhou em outros clássicos 'Noir' ('Raw Deal e 'He Walked By Night', produções de 1948). 
As listas mais recentes já incluíram cerca de 250 filmes sob esta denominação, embora nem todos os filmes possuam todas as características que os definiriam como sendo 'Noir'. 

Entre os principais elementos que são estão quase sempre presentes em um ‘film Noir’, nós temos: 

A) A existência de uma ‘Femme Fatale’ (quase sempre loira); 

B) Crimes; 

C) Policiais corruptos; 

D) Mafiosos e rufiões; 

E) Histórias tipicamente urbanas, que ocorrem em grandes cidades; 

F) Escuridão; 

G) Personagens ambivalentes; 

H) Fatalismo. 
A bela Susan Lowell tem um romance, que já dura quatro anos, com o mafioso Sr. Brown. Ele a trata de forma autoritária e controladora, mas mesmo assim ela não esconde que ele é o seu grande amor. 
E praticamente todas estas características estão presentes neste excelente filme Noir que é ‘The Big Combo’, com a exceção de uma femme fatale propriamente dita, embora tenhamos três mulheres envolvidas na trama. E todas elas são tristes e infelizes. 

Obs1: Para maiores esclarecimentos a respeito dos filmes ‘Noir’ recomendo a leitura de alguns artigos e trabalhos acadêmicos que podem ser baixados na Internet. Entre os mesmos, sugiro os seguintes: 

A) “Chandler no Cinema Noir: algumas reflexões sobre ‘A simples arte de matar’”, de Michel Misse, publicado na revista ‘Sociologia’, ano 15, número 34, set/dez de 2013, págs. 140-154; 

B) ‘Film Noir’: Análise e identificação das características, padrões e clichês do film Noir clássico’, Tese de Mestrado de Abigail Rito Fragoso; 

C) ‘Sobre crimes, mulheres fatais e investigadores: Do romance Noir ao film Neo-Noir, um longo percurso’ – Artigo da Profa. Marilu Martens Oliveira;

D) No livro ‘História do Cinema Mundial’ também temos um capítulo dedicado ao filme ‘Noir’, de autoria de Fernando Mascarello.
Susan é triste e infeliz em sua vida com o Sr. Brown e por isso ela tenta cometer suicídio. Amor, obsessão, sexo e psicose estão presentes na trama deste fantástico filme Noir. 
A trama de ‘The Big Combo’ se desenvolve em uma grande cidade dos EUA (que pode ser Nova York ou Chicago) e envolve um tenente da Polícia (Leonard Diamond) que investiga um perigoso e violento criminoso (Mr. Brown). Este último comanda uma organização criminosa que controla inúmeras atividades ilegais.

Porém, Brown é muito esperto e procura não deixar pistas ou provas das suas atividades criminosas, sendo que possui um grande cofre secreto em sua residência, no qual esconde dinheiro e armas. Brown fica impune dos crimes que comete, pois ele também consegue comprar o silêncio das pessoas que poderiam lhe criar problemas. A corrupção sempre era denunciada nos filmes 'Noir'. 

Já o tenente Diamond é obcecado em querer investigar e prender Brown, mas não consegue obter provas concretas do envolvimento dele em qualquer crime. E para piorar um pouco mais, ele ainda é totalmente apaixonado por Susan Lowell, a amante do chefão mafioso. 

As significativas despesas de Diamond com essa investigação (US$ 18 mil dólares) acabam por fazer com que o Capitão Peterson determine o encerramento da mesma, pois não existem provas do envolvimento do mesmo com qualquer atividade criminosa, mas Diamond não desiste e diz que conseguirá obter as provas necessárias para prender Brown em breve. 
Sr. Brown (interpretado magistralmente por Richard Conte) dá uma bronca em um boxeador que não consegue sentir ódio pelo seu oponente. Ele ama o poder e diz que 'O primeiro é o primeiro. E o segundo é ninguém'. 
Diamond chega a gastar o seu próprio dinheiro e a trabalhar no seu tempo livre durante seis meses tal é a sua vontade em prender Brown. Tal perseguição ao criminoso também ocorre em função do fato dele ser totalmente apaixonado pela amante de Brown, a bela Susan Lowell (uma loira linda e sensual que foi interpretada por Jean Wallace).  

Obs2: Na vida real, Cornel Wilde (Tenente Diamond) e Jean Wallace (Susan Lowell) foram casados por 30 anos, entre 1951 e 1981. 

Diamond tenta fazer com que Susan colabore com a Polícia, falando tudo o que sabe a respeito das atividades criminosas do mesmo, mas ela se recusa, pois é apaixonada por ele. Susan diz que Brown foi o primeiro – e único - amor da sua vida, embora ele a trate de forma autoritária, dizendo até que qual é a cor do vestido que ela deve usar, embora ela se recuse. A vida infeliz que Susan tem ao lado de Brown acaba fazendo com que ela fume e beba bastante, bem como a leva a confrontá-lo em várias oportunidades. 

No início do filme, Brown diz que conseguiu subir no mundo do crime por ser mais violento e implacável do que os outros criminosos e se orgulha daquilo que conquistou agindo desta maneira. Ele é orgulhoso e autoconfiante e não teme ninguém, pois sabe que possui aliados poderosos, que lhe dão cobertura para as suas atividades criminosas e que são bem remunerados por isso. 
Mr. Brown trata o tenente Diamond com arrogância e desprezo. Ele sequer olha para Diamond ou se dirige a ele diretamente. O policial quer prender Brown de qualquer maneira e não esconde que é apaixonado pela bela amante (Susan) do mesmo. 
Diamond é o policial honesto e correto, que trabalha o tempo inteiro e que se dedica a combater o crime acima de tudo. Ele é ironizado por Brown que diz ‘Ele é um homem correto’ em tom de desprezo, dizendo que o tenente ganha um salário inferior ao dos empregados dos seus hotéis. Mesmo assim, Diamond não desistirá enquanto não colocar Brown na prisão. 

Enquanto isso, Peterson é um capitão da Polícia que não esconde de Diamond que já livrou a cara de um grande criminoso no passado, mostrando que as linhas que separavam a Polícia e os criminosos eram bastante tênues, o que era outra características importante dos filmes Noir. Neles, a ambiguidade é uma característica que está sempre presente nos personagens. 

Desesperada com a vida infeliz que tem ao lado de Brown, Susan tenta cometer suicídio e Diamond se aproveita do fato para interroga-la no hospital. No local, meio inconsciente, ela acaba falando o nome de uma mulher: Alicia, o que deixa Diamond intrigado. E a pronúncia deste nome muda o rumo da história. 

Diamond chegou a mandar prender Brown e todos os empregados deste, a fim de descobrir alguma informação a respeito de Alicia, mas não conseguiu obter nenhuma prova do envolvimento de Brown com qualquer atividade criminosa, pois o mesmo ameaçou aos seus funcionários, que ficaram em silêncio. 
 O tenente Diamond tenta convencer Susan a contar tudo o que sabe sobre os crimes de Brown, mas ela se recusa a fazer isso, pois o ama, mesmo sendo muito mal tratada pelo mesmo. 
E Brown também não confessou absolutamente nada para Diamond, é claro, mesmo sendo interrogado com o uso do detector de mentiras. Durante o interrogatório ele demonstrou, novamente, o seu desprezo pelo policial, dizendo que conhece e vai a restaurantes aos quais Diamond jamais teria condições financeiras de frequentar. 

Assim, Brown saiu ileso, sendo que posteriormente ele mandou sequestrar Diamond, que acabou sendo interrogado por Brown e por seus capangas (Joe, Fante e Mingo). Diamond acaba sendo deixado bêbado em frente ao apartamento de Peterson, que percebe o que havia sido feito com o teimoso tenente. 

Durante a investigação feita por Diamond a respeito das atividades criminosas de Brown, o persistente tenente foi atrás de um antigo sócio do mafioso, que é Bettini, que é um velho solitário e que acaba contando a história de Alicia para Diamond. Bettinio acaba dizendo que a Alicia era esposa de Brown, mas que ela teria sido assassinada pelo mesmo durante uma viagem marítima, alguns anos antes, para Portugal. 

Porém, ao investigar o caso, Diamond descobre que Alicia não está morta, mas que vive perto dali. Ele descobre o local onde ela está e vai interroga-la, mas ela resiste a passar qualquer informação para o tenente. Ela demonstra, claramente, que ama e odeia Brown e que tem muito medo do mesmo, pois conhece o caráter inescrupuloso e violento do mesmo.
Mesmo sendo tratada de forma arrogante por Mr. Brown, Susan não resiste ao mesmo. No filme 'Cães de Aluguel', Quentin Tarantino interpretou um personagem que se chamava justamente 'Mr. Brown', numa clara homenagem ao clássico filme dirigido por Joseph H. Lewis. 
E fica claro que Alicia era muito mais bonita anteriormente, quando era esposa de Brown, mas que o tempo foi cruel com ela. Assim, Mr. Brown é aquele típico homem todo-poderoso que deseja ter uma bela mulher sob o seu domínio, mesmo que não sinta nada pela mesma. 

Quando Brown descobriu (por meio de Susan) que Diamond tinha obtido informações importantes a respeito de Alicia, o mesmo mandou Mingo e Fante ir até o apartamento do tenente, com o objetivo de eliminá-lo. 

Mingo e Fante formam um casal de amigos bastante próximos e que trabalham como capangas para Mr. Brown. No filme é sugerido que o relacionamento deles seria mais íntimo do que o habitual, o que também não comum nas produções de Hollywood nesta época. 

Mas quem estava no local era a bonita e sensual Rita, uma dançarina com quem Diamond teve um relacionamento amoroso e que ainda é apaixonada por ele. 

Quando ele a procurou, anteriormente, na boate em que ela trabalhava, e a convidou para ir à sua casa a fim de participar de uma 'festa', inicialmente ela recusou, mas logo depois ela mudou de ideia. Nesta ocasião ela reclamou que Diamond demorou seis meses para procurá-la, sugerindo ele havia esquecido dela. 
A bela dançarina Rita é apaixonada por Diamond, que sofre porque deseja amar e viver com Susan, que é a amante do mafioso Mr. Brown. 
Ela pede para Diamond que quando outra mulher fizer com que ele sofra, que ele não espere tanto tempo para procurá-la novamente. Assim, fica claro que Rita é apaixonada por Diamond e que eles passaram uma noite juntos na qual tiveram relações sexuais. 

Mas nos filmes da época isso era apenas sugerido, pois o chamado 'Código Hays' não permitia que as produções de Hollywood exibissem cenas de sexo. 

Rita já tinha avisado Diamond, em outro momento, de que Brown iria tentar matá-lo, mas ela é quem acabou sendo assassinada no lugar do homem que ela tanto amava.


Agora, após o assassinato frio e brutal de Rita, o tenente Diamond fica mais determinado do que nunca e quer prender Brown de qualquer maneira e, para isso, ele passou a contar com a colaboração de Susan, que passou a ver o seu amante do jeito que ele realmente é. 

Porém, Brown não quer correr riscos e tenta matar Fante e Mingo, pois estes sabiam tudo a seu respeito. No entanto, Mingo sobrevive à tentativa de assassinato e, desesperado em função da morte do amigo (Fante), ele decide colaborar com a Polícia. 
Diamond não esconde de Susan que a ama intensamente, mas inicialmente ela se recusa a colaborar na investigação que ele faz sobre o cruel Mr. Brown, apesar do tratamento possessivo e repressor que recebe do mesmo. No filme os relacionamentos entre homens e mulheres são, no mínimo, bastante problemáticos. 
Mas o esperto Brown foge, levando a bela Susan junto. Eles se dirigem até um aeroporto, pois ele havia contratado um piloto para levá-los embora, de avião. 

Diamond acaba usando a fotografia do corpo de Rita para convencer Alicia a colaborar com a Polícia e ela termina por concordar, dizendo qual era o aeroporto para onde Brown havia fugido com Susan. Alicia deixa claro que odeia todas as mulheres que se aproximaram de Brown. Assim, ela ama e odeia Brown ao mesmo tempo. 

Diamond chega ao aeroporto, que está imerso em total escuridão (o Noir...), o que deixa Brown assustado. Este desfere vários tiros na direção de Diamond, mas não consegue acertar nenhum. Diamond manda prender Brown que, desesperado, pede para ser morto, mas isso não acontece, pois ele não deseja ir para a prisão.

Diamond e Susan vão embora, juntos. 

Fim. 
Nesta cena o antigo chefe de Mr. Brown (Joe McClure) foi executado por Fante e Mingo. Mr. Brown retirou o aparelho de surdez que Joe usava, para que ele não ouvisse nada. E com isso não se ouve nenhum som nesta cena. Godard fez o mesmo no filme 'Bande à Part', de 1964. 

Informações Adicionais:


Título: The Big Combo (O Império do Crime);
Diretor: Joseph H. Lewis;
Roteiro: Philip Yordan;
Ano de Produção: 1955; País de Produção: EUA;
Duração: 87 minutos; Gênero: Filme Policial ‘Noir’;
Música: David Raksin; Fotografia: John Alton;
Elenco: Cornel Wilde (Leonard Diamond); Richard Conte (Mr. Brown); Brian Donlevy (Joe McClure); Jean Wallace (Susan Lowell); Lee Van Cleef (Fante); Robert Middleton (Capitão Peterson); Earl Holliman (Mingo); Helen Walker (Alicia Brown); John Hoyt (Nils Dreyer); Ted de Corsia (Ralph Bettini); Helene Stanton (Rita); Roy Gordon (Audubon).
Susan e Diamond vão embora, juntos, depois que Brown foi levado preso. Assim, eles irão começar uma nova vida. A fotografia escura e sombria é um dos aspectos mais marcantes deste fantástico filme Noir.  
Vídeo - Trecho do Filme:

sábado, 10 de junho de 2017

‘Cette Nuit-Là...’ (‘Aquela Noite’): Maurice Cazeneuve fez um clássico do ‘Noir’ francês! – Marcos Doniseti!

‘Cette Nuit-Là...’ (‘Aquela Noite’): Maurice Cazeneuve fez um clássico do ‘Noir’ francês! – Marcos Doniseti!
'Cette Nuit-Là', de Maurice Cazeneuve... Para Stanley Kubrick este é um dos 10 melhores filmes de todos os tempos. 
‘Cette Nuit-Là’ é um filme francês produzido em 1958, que claramente está inserido na tradição dos filmes policiais ‘Noir’, e que Stanley Kubrick considerava como um dos dez melhores filmes de todos os tempos. 

Este é um típico filme policial ‘Noir’, sendo que grande parte dos principais elementos do ‘estilo’ estão presentes no mesmo.

Para os estudiosos dos filmes ‘Noir’, entre os seus principais elementos e características, nós temos: 

A) A presença da ‘femme fatale’: Uma mulher bela, sensual e fatal (e quase sempre loira); 

B) O erotismo latente, com a presença de muitas jovens e belas mulheres, que usam da sua beleza e sensualidade para manipular os homens, que acabam tendo, muitas vezes, finais trágicos; 

C) Crimes, que são vistos pelas pessoas como o único mecanismo possível de ascensão social e econômica numa época de crise econômica marcada pela Grande Depressão e pela Segunda Guerra Mundial, bem como a melhor maneira de resolver os conflitos, pois as instituições estão corrompidas (principalmente a Polícia e a Justiça) e não são confiáveis; 
A belíssima Mylène Demongeot interpreta Sylvie, uma femme fatale que manipula o patrão e que desencadeia uma sucessão de acontecimentos sobre os quais ela perde totalmente o controle e que prejudicam o seu próprio marido. 
D) Investigação policial feita por um detetive durão, que vive no ‘limite da honestidade’: Ele enfrenta os poderosos, mas também faz acordos com os mesmos a fim de garantir a sua sobrevivência; 

E) Cenas noturnas, tipicamente urbanas, feitas em ruas escuras e desertas;

F) Forte influência do cinema Expressionista alemão, de filmes realizados por cineastas como Fritz Lang, Paul Leni e F.W. Murnau que, depois, foram trabalhar em Hollywood;

G) Significativa influência dos filmes de Gângsters, muito populares nos EUA durante a década de 1930, época da Lei Seca e da Grande Depressão. A principal obra desta época foi ‘Scarface’ (1932), de Howard Hawks. Tais filmes glorificavam os bandidos, eram marcados por uma moral ambivalente e mostravam muitas cenas de crimes e violência, é claro;

H) Visão crítica e bastante negativa sobre a sociedade, que é mostrada como sendo corrupta, repressiva, injusta, moralista, hipócrita e violenta; 
Reverdy é um patrão rico, corrupto, amoral e sem escrúpulos que é apaixonado pela bela modelo Sylvie, que é casada com Jean, e que tenta conquista-la de qualquer maneira. 
I) Influência da literatura policial ‘Hard-Boiled’, que também foi chamada de ‘Noir’, que foi produzida por escritores como Dashiel Hammett (inventor do gênero), Raymond Chandler, James M. Cain e David Goodis, entre outros;

J) Influência das histórias de crime e mistério que foram publicadas nas chamadas ‘Pulp Magazines’ (alguém aí se lembrou de ‘Pulp Fiction’?), caso das revistas ‘Black Mask’, ‘Dime Detective’ e ‘Detective Fiction Weekly’ que fizeram imenso sucesso durante a década de 1930 e 1940. 

O termo ‘Filme Noir’ foi criação de um crítico francês, Nino Frank, que o usou, pela primeira vez, em um texto intitulado “‘Um Nouveau Genre Policier: L’Aventure Criminelle’”, que foi publicado por uma revista francesa (‘L’Ecran Français) em 
Agosto de 1946. 

Nino Frank e outros críticos franceses tomaram contato, no Pós-Guerra, com uma série de filmes policiais produzidos nos EUA, sendo que eles possuiriam certas características em comum. 

Obs1: Outro crítico francês que passou a usar o termo ‘Filme Noir’ foi Henri-François Rey, que é um dos roteiristas deste clássico filme de Cazeneuve.
Alan Ladd e Veronica Lake, casal icônico dos filmes Noir. 
Entre os filmes tidos como definidores do ‘Noir’ por tais críticos, temos: ‘Relíquia Macabra’ (John Huston, 1941); ‘Alma Torturada’ (Frank Tuttle, 1942); ‘Até a vista, Querida’ (Edward Dmytryk, 1943); ‘Laura’ (Otto Preminger, 1944); ‘Pacto de Sangue’ (Billy Wilder, 1944); ‘Um Retrato de Mulher’ (Fritz Lang, 1944); ‘Assassinos’ (Robert Siodmak, 1946); ‘À Beira do Abismo’ (Howard Hawks, 1946); ‘Gilda’ (Charles Vidor, 1946); ‘A Dama do Lago’ (Robert Montgomery, 1947). 

No livro ‘História do Cinema Mundial’ (página 181), Fernando Mascarello escreveu o seguinte a respeito dos filmes ‘Noir’:

“O elemento central é o tema do crime, entendido pelos comentadores como campo simbólico para a problematização do mal-estar americano do pós-guerra (resultado da crise econômica e da inevitável necessidade de reordenamento social ao fim do esforço militar). 

Segundo esses autores, o Noir prestou-se à denúncia da corrupção dos valores éticos cimentadores do corpo social, bem como da brutalidade e hipocrisia das relações entre indivíduos, classes e instituições.

Foi veículo, além disso, para a tematização (embora velada) das emergentes desconfianças entre o masculino e o feminino, causadas pela desestabilização dos papéis sexuais durante a guerra. 
Cena do filme 'The Big Combo', clássico Noir de 1955 que foi dirigido por Joseph H, Lewis. 
Metaforicamente, o crime Noir seria o destino de uma individualidade psíquica e socialmente desajustada, e, ao mesmo tempo, representaria a própria rede de poder ocasionadora de tal desestruturação. 

A caracterização eticamente ambivalente da quase totalidade dos personagens Noir, o tom pessimista e fatalista, e a atmosfera cruel, paranoica e claustrofóbica dos filmes, seriam todos manifestação desse esquema metafórico de representação do crime como espaço simbólico para a problematização do pós-guerra.”.

A respeito dos aspectos narrativo e estilístico dos filmes ‘Noir’, Mascarello escreveu o seguinte: 

“Já do ponto de vista narrativo e estilístico é possível afirmar (grosso modo) que as fontes do Noir na literatura policial e no Expressionismo cinematográfico alemão contribuíram, respectivamente, com boa parte dos elementos cruciais. 

Entre os elementos narrativos, cumpre destacar a complexidade das tramas e o uso do flashback (concorrendo para desorientar o espectador), além da narração em over do protagonista masculino.
Dorothy Malone e Humphrey Bogart em 'The Big Sleep', um dos maiores clássicos Noir. 
Estilisticamente, sobressaem a iluminação low-key (com profusão de sombras), o emprego de lentes grande-angulares (deformadoras da perspectiva) e o corte do big close-up para o plano geral em plongée (este, o enquadramento Noir por excelência).

E ainda a série de motivos iconográficos como espelhos, janelas (o quadro dentro do quadro), escadas, relógios etc. - além, é claro, da ambientação na cidade à noite (noite americana, em geral), em ruas escuras e desertas. 

Num levantamento estatístico, possivelmente mais da metade dos Noirs traria no título original menção a essa iconografia - night, city, street, dark, lonely, mirror, window - ou aos motivos temáticos - killing, kiss, death, panic, fear, cry etc.”.

Obs2: Trecho retirado do livro ‘História do Cinema Mundial’ (Fernando Mascarello – org.), capítulo ‘Filme Noir’, de autoria de Fernando Mascarello, páginas 181-182. 

Estudos feitos a respeito dos filmes policiais ‘Noir’ também notaram a presença de um tema que, muitas vezes, está meio que escondido nas ‘entrelinhas’ dos mesmos, que é a ‘crise da masculinidade’, com o homem tendo cada vez menos controle sobre o comportamento das mulheres nesta época. 
Jean, Reverdy e Sylvie. Dois homens em conflito por causa de uma bela mulher? Isso não pode acabar bem... 
Sobre este assunto, Fernando Mascarello escreveu o seguinte: 

“Os proponentes do Noir afirmam ter sido ele veículo para a representação de um dos elementos centrais da "cultura da desconfiança" do pós-guerra: a intensa rivalidade entre o masculino e o feminino. 

Esta resultava, por um lado, da modificação dos papéis sexuais em decorrência da mobilização militar e, por outro, da disputa pelo mercado de trabalho entre os contingentes retornados do front e a mão-de-obra feminina treinada para substituí-los durante o conflito. 

O que produzia, em conjunto, uma verdadeira crise identitária masculina ou, como quer Richard Dyer, "uma ansiedade com relação à existência e definição da masculinidade e da normalidade" (1978, p. 91). 

De acordo com esse autor, o tema é "raramente expresso de forma direta, podendo, no entanto, ser considerado constitutivo da problemática do Noir, aquele conjunto de temas e questões de que os filmes procuram dar conta sem porém nunca realmente articulá-los".
Reverdy olhando uma fotografia da bela, jovem, sensual e irresistível Sylvie... 
É nesse contexto que deve ser entendida a figura Noir mítica da mulher fatal. Um dos temas mais recorrentes da história da arte, no Noir, a femme fatale metaforiza, do ponto de vista masculino, a independentização alcançada pela mulher no momento histórico do pós-guerra. 

Ao operar a transformação dela em sedutora malévola e passível de punição, o Noir procura reforçar a masculinidade ameaçada e restabelecer simbolicamente o equilíbrio perdido.”.

Obs3: Trecho retirado do livro ‘História do Cinema Mundial’ (capítulo ‘Filme Noir’, de 
Fernando Mascarello, página 182). 

E neste belo filme de Cazeneuve essa ‘crise da masculinidade’ fica mais do que evidente. 

A estrela do filme é a jovem, sensual e belíssima atriz Mylène Demongeot, que interpreta Sylvie, que contava com 23 anos de idade quando o filme foi realizado. 
Sylvie tem plena consciência da atração que exerce sobre Reverdy e usa isso para conseguir dinheiro dele. Nos filmes Noir as mulheres que exerciam o papel da 'femme fatale' eram quase sempre loiras. 
Sylvie é uma modelo fotográfica e também a bela esposa de um funcionário (Jean Mallet) de uma revista de moda, cujo proprietário (André Reverdy) demonstra grande interesse por Sylvie, sendo apaixonado pela mesma. Esse interesse fica bastante evidente desde as primeiras cenas do filme. 

Já no primeiro diálogo entre ambos, Reverdy diz 'Ela era bela e ele era rico. E assim começam todas as histórias de amor'. Logo depois, Reverdy critica acidamente o trabalho feito por Jean e sua equipe e determina que a capa da próxima edição da revista seja uma fotografia de Sylvie. 

Jean pergunta para Giselle, secretária de Reverdy, porque o patrão o detesta. Ela diz que o motivo disso é que ele, Jean, é mais talentoso e mais jovem... Ela também segura a revista com a fotografia de Sylvie, como se estivesse dizendo 'Mas o principal motivo é você tem a mulher que ele deseja'. Ela completa falando que aquilo que Reverdy deseja, ele deseja de verdade. 

Assim, Jean percebe o crescente interesse do seu patrão por sua bela esposa e isso faz com que ele fique, cada vez mais, com ciúmes de sua mulher, o que é percebido por Sylvie, é claro. Além disso, Jean também adota uma postura crescentemente hostil em relação à Reverdy, dizendo para este ficar longe da mesma. 
Sylvie: Bela, sensual, jovem e manipuladora. Sua independência em relação ao marido irá criar sérios problemas para ambos. Os filmes Noir retratavam a perda de poder dos homens sobre as mulheres na sociedade americana e europeia do Pós-Guerra. 
Reverdy, porém, neste momento, pega o exemplar da revista (com Sylvie na capa), o que é uma maneira clara de dizer que ele não fará isso. Mesmo assim, a bela Sylvie procura amenizar o clima ruim que existe entre os dois homens. 

Porém, existe uma razão muito forte para que ela adote esse comportamento: Jean e Sylvie precisam de dinheiro (dois milhões de Francos) para construir uma garagem.

Sylvie sugere para o marido que sabe como poderá conseguir o dinheiro: procurando atrair e seduzir Reverdy, fazendo com que este passe a ter esperanças de que poderá vir a conquista-la. 

Assim, Sylvie é a mulher fatal e sedutora da história (e é muito bonita e loira, é claro). 

Jean, porém, repudia inteiramente essa ideia e fica inconformado quando descobre que a sua bela esposa pensou em levar tal plano adiante. Neste momento, fica claro que o marido, Jean, não consegue controlar o comportamento de Sylvie. É a ‘crise do homem’, ou da ‘masculinidade’, que está em evidência no filme. 

Em outra cena, inclusive, um personagem (um chantagista) diz para Jean que o padrão de vida que ele desfruta somente é possível devido ao trabalho de Sylvie como modelo, mostrando que há uma dependência econômica de Jean em relação à esposa. 
Sylvie e Jean vivem momentos de angústia com a possibilidade dele ser preso pela Polícia de Paris. As ações de Sylvie desencadearam uma sucessão de acontecimentos sobre os quais ela perdeu o controle. 
Para se constatar essa independência de Sylvie em relação a Jean basta ver como a mesma age em relação à Reverdy, patrão dela e do marido. 

Sylvie decide usar do imenso poder de atração que exerce sobre Reverdy para tirar proveito do mesmo, tentando conseguir, desta maneira, os dois milhões de francos que ela e o marido necessitam para completar a reforma do seu apartamento. E ela age dessa maneira mesmo com o marido reprovando tal comportamento. Logo, ela é muito bela, mas de ingênua a sensual Sylvie não tem absolutamente nada. 

E quando ele fica sabendo que Reverdy mandou lhe entregar um cheque de dois milhões de francos e mandou muitas rosas para Sylvie, Jean fica convencido de que a sua jovem, bela e sensual esposa foi seduzida pelo seu rico e poderoso patrão, embora isso não tenha acontecido. 

Afinal, Sylvie é completamente apaixonada por Jean e muito dificilmente o trairia. Mas ela não percebeu que o jogo que fazia com Reverdy era bastante perigoso, pois mexia com sentimentos muito fortes, e que o mesmo poderia ter consequências imprevisíveis. 
Mesmo com o marido correndo o risco de ser preso, em nenhum momento a bela Sylvie deixa de apoiar Jean. Até porque ela se sente responsável pelo que aconteceu. 
Ela queria ‘apenas’ usar do seu poder de sedução para arrancar o dinheiro de Reverdy, mas jamais pensou em se relacionar (sexual ou romanticamente) com o mesmo. Logo, eles não chegam a ‘consumar’ tal relação de atração e sedução que Sylvie faz. 

Mas Jean não sabe disso, ficando inteiramente possesso ao pensar na possibilidade de que Sylvie tenha se relacionado com o seu patrão e, assim, toma a decisão de matar Reverdy. 

Desta maneira, Jean pega o carro e vai atrás de Reverdy. Assim, Jean vai, pelas ruas de Paris, à noite, o que dá origem a uma bela cena, tipicamente urbana, que está sempre presente nos filmes ‘Noir’, com seus carros em ruas escuras, mal iluminadas. 

Jean vai até a casa em que Reverdy recebe os seus amigos e amigas, que é um local reservado para beber, usar drogas, praticar a prostituição e fazer outras ‘cositas más’, práticas claramente ilegais que são do conhecimento da Polícia, mas que esta não tem como reprimir, pois Reverdy tem fortes conexões com os poderosos mandas-chuvas da cidade, que lhe dão cobertura para as suas atividades ilícitas. 
Martin faz chantagem com Jean, exigindo a entrega de uma grande soma de dinheiro para devolver o revólver do mesmo. Mas o destino de Martin não será dos melhores.
Assim, a denúncia da corrupção praticada pelos poderosos, que é outra característica importante da literatura policial e dos filmes ‘Noir’, também está presente nesta bela e clássica produção de Cazeneuve. 

Jean vê a sua esposa ir embora, entrando em um táxi, e fica esperando pelo momento em que Reverdy sairá da sua mal afamada casa (muitas pessoas sabem o que se faz ali...) para matar o homem que deseja lhe tomar a esposa, a qual ele ama intensamente, sentimento no qual é plenamente correspondido por Sylvie. 

Mas o seu plano tem um resultado catastrófico: Em vez de assassinar o seu patrão, ele acaba matando outro homem, inteiramente desconhecido.  E quando percebe o que fez, ele fica preocupado em saber se ninguém o viu cometendo o crime e esconde o corpo da vítima. 

Porém, ele deixa algumas pistas para trás: a chave do seu carro e um revólver.

Quando ele volta para casa, Sylvie o esperava para sair, mas ele conta que havia 
cometido um assassinato. A esposa reage com perplexidade, porém, fica ao lado dele e decide ajudá-lo. Ele até chega a buscar o carro, usando a sua própria chave. 
A bela Sylvie fica tensa e preocupada com o fato de que Jean ainda poderá ser preso e faz de tudo para ajudar o marido. 
Afinal, Sylvie sabe que tem uma grande parte da responsabilidade pelo que aconteceu e, com isso, ela rasga o cheque de dois milhões de francos que havia recebido e Jean devolve a chave do apartamento de Reverdy para o mesmo. 

Sylvie também telefona para a Polícia a fim de descobrir se haviam encontrando o corpo de um homem que tivesse as mesmas características daquele que Jean matou, mas o investigador não lhe diz coisa alguma. 

Na sequência, vemos uma parte do filme que mostra toda a crescente tensão, angústia e nervosismo do casal, que fica preso dentro do seu apartamento, aguardando pelo momento em que algum investigador da Polícia irá aparecer ali para interrogar e prender Jean pelo crime que o mesmo havia cometido. 

Jean e Sylvie compram todos os jornais (‘Le Figaro’, ‘Le Parisien’) para descobrir se a Polícia já encontrou o corpo, mas nenhuma informação é publicada a respeito. 

Mas não demora muito e Jean passa a ser chantageado por um homem, que lhe envia a chave e um desenho da cena do crime. Este chantagista acabará exigindo três milhões de francos para devolver o revólver, dinheiro que o casal não possui. O chantagista e Jean marcam um encontro no Metrô, onde trocarão o revólver pelo dinheiro. 
Sylvie tenta usar do seu poder de sedução para conseguir que Reverdy não prejudique Jean. Mas o seu ex-patrão quer muito mais do que apenas seduzir Sylvie...
Jean e Sylvie vão juntos, mas ela fica olhando de longe, apenas observando, sendo que a missão dela seria perseguir o chantagista depois que o mesmo devolvesse o revólver. 

Porém, nem Jean levou o dinheiro combinado e tampouco o chantagista levou o revólver. Com isso, o chantagista aumenta o valor do 'resgate' do revólver para quatro milhões de francos. Porém, o mesmo estava sendo vigiado pela Polícia e na tentativa de fugir ele acaba morrendo, ao cair sobre os trilhos do Metrô. 

Assim, Jean e Sylvie pensam que os seus problemas terminaram, mas depois foi a vez de Reverdy aparecer, reconhecendo que o chantagista estava a seu serviço e que o revólver usado por Jean no crime está com ele. 

Para devolver o revólver, Reverdy diz que deseja que Jean lhe entregue a sua esposa e que se ele não o fizer irá para a prisão. Reverdy também afirma que todos podem ser comprados e que ele nunca fracassa. 
Sylvie despreza e humilha Reverdy depois que este lhe disse que desejava ser amado e viver com ela. 
Jean recusa-se a dizer para Sylvie o que Reverdy deseja em troca da devolução do revólver e decide ir atrás do mesmo, com o objetivo de eliminá-lo. Desesperada com a situação que criou, Sylvie telefona para Reverdy, atraindo-o para a sua residência, com o objetivo de trocar o revólver por uma relação sexual. 

Mas ela fica surpresa quando o mesmo lhe diz que não deseja ter apenas uma relação sexual com ela, mas viver ao lado dela, para ser amado por Sylvie. Esta reage com uma risada histérica, o que irrita Reverdy. Sylvie lhe diz que jamais irá amá-lo, pois já sente esse amor por Jean. Ela humilha Reverdy, dizendo que ele acabará sua vida como um velho infeliz, amargo e solitário. 

Reverdy vai para a sua casa (em Montmartre), onde é procurado pelo investigador Toussaint, que lhe diz que sabe das suas conexões ilegais com o chantagista morto e que um homem que havia sido atacado (por Jean) nas proximidades de sua residência sobreviveu ao ataque. 

Toussaint diz que tal homem havia saído da casa de Reverdy e que o mesmo contou tudo sobre as atividades ilícitas deste, dizendo que ele não conseguirá, desta vez, se livrar de uma investigação, mesmo tendo conexões poderosas que sempre lhe protegeram. 
Reverdy apontando a arma para Jean...
Neste momento, Jean estava dentro da residência de Reverdy, escondido, e ouviu tudo. Porém, Reverdy está com a sua arma e ameaça mata-lo. Jean chega a telefonar para Sylvie, dizendo que logo voltará para casa, mas fala num tom de voz diferente, como se estivesse se despedindo da esposa. 

Mas ele sai da casa e Reverdy não o mata. Logo depois, ouve-se um tiro, que é o do suicídio do patrão rico, solitário, velho e amargurado. 

Jean caminha de volta para casa, feliz, onde vê, na cidade, uma imagem imensa da esposa na capa da revista de Reverdy.

Fim. 

Obs4: Na obra-prima ‘A Dupla Vida de Véronique’, do genial cineasta polonês Krzysztof Kieslowski, também aparece uma imensa fotografia, na mesma cidade de Paris, da protagonista do filme, e que também é (tal como Sylvie) uma modelo fotográfica (que é interpretada por Irène Jacob). Teria o cineasta polonês se inspirado neste filme de Cazeneuve? 

Frase: Reverdy: Faça o que digo ou faça-me desaparecer. Eu também gostaria disso. Matar duas vezes ao mesmo homem. 
Fotografia imensa de Sylvie em rua de Paris, fazendo propaganda da revista... Será que, no belíssimo 'A Dupla Vida de Véronique', Kieslowski se inspirou no filme de Cazeneuve? 
Informações Adicionais:

Título: Cette Nuit-Là (Aquela Noite);
Diretor: Maurice Cazeneuve;
Roteiro: Maurice Cazeneuve, Paul Guimard, Henri-François Rey (baseado no romance de Michel Lebrun ‘Un Silence de Mort’)
Ano de Produção: 1958; País de Produção: França;
Duração: 90 minutos; Gênero: Drama; Policial; Romance; 
Fotografia: Léonce-Henri Burel;
Música: Claude Bolling (sequências de Jazz), Henri Forterre, Maurice Leroux;
Elenco: Mylène Demongeot (Sylvie Mallet); Maurice Ronet (Jean Mallet); Jean Servais (André Reverdy); Jean Lara (Investigador Toussaint); Françoise Prévost (Secretária de Reverdy); Hubert Noel (Gérald Martin); Gilbert Edard (François).

Vídeo - Trecho do Filme:

sexta-feira, 2 de junho de 2017

‘Un Amore a Roma’ - Dino Risi fez um belo drama romântico! – Marcos Doniseti!

‘Un Amore a Roma’ - Dino Risi fez um belo drama romântico! – Marcos Doniseti!
'Un Amore a Roma' é um belo Drama Romântico do diretor italiano Dino Risi, que se consagrou com comédias clássicas e bastante populares. O filme foi lançado em 1960, ano em que também tivemos 'A Doce Vida', de Fellini. E em 1961 tivemos o lançamento de 'A Noite', de Antonioni. Nos três filmes temos a presença de um mesmo roteirista (Ennio Flaiano).
Dino Risi foi um dos principais cineastas italianos do Pós-Guerra e ficou mais conhecido por suas comédias, que fizeram grande sucesso, principalmente na década de 1960. Entre as principais obras dele temos 'Pane, Amore E...' (1955),  'Poveri ma Belli' (1957) e 'Il Sorpasso' (1962). 

Mas ele também fez outros gêneros de filmes, como é o caso deste ótimo ‘Un Amore a Roma’, de 1960, um drama romântico cuja história se passa em Roma e que é baseado em um romance de Ercole Patti.

A trama do filme se desenvolve em torno de um Conde (Marcello Cenni), integrante de uma família da nobreza decadente e empobrecida. Seu pai já é idoso e doente, mal conseguindo sair da cama, onde acaba falecendo.

Enquanto isso, Marcello é um intelectual, formado em Literatura e que vive de escrever textos literários. Ele também está finalizando a sua tese. 

Quando não está envolvido com a Literatura, ele vive de conquistar e descartar mulheres, com as quais se envolve de forma apenas temporária. Logo, Marcello é um intelectual esnobe e de origem nobre que trata as mulheres como se fossem meros objetos. 
Marcello é membro de uma família nobre, mas empobrecida, e começa e termina relacionamentos com mulheres com grande frequência. Fulvia foi uma das vítimas dessa forma de agir do frio e insensível Conde conquistador.  
Marcello se envolve com inúmeras mulheres, descartando-as quando se cansa delas ou quando percebe que elas não possuem todas as características que procura nas mesmas, principalmente a inteligência, a simplicidade e a ingenuidade. 

Quando se cansa delas, ele termina o relacionamento e inicia um novo, pouco se 
importando se as mulheres que abandona estão apaixonadas por ele ou não e se elas irão sofrer ou não com a sua atitude, que é totalmente fria, insensível e egoísta. 

Ele se preocupa apenas com a sua liberdade pessoal e com os próprios desejos e satisfações. 

O filme começa justamente em um momento no qual o Conde Marcello está terminando um destes relacionamentos. A cena, muito bonita, se passa em uma praça romana, à noite. 

Apesar da mulher (Fulvia, mulher bonita e sofisticada que está apaixonada por Marcello) implorar para que eles possam continuar juntos, ele se mantém intransigente e a dispensa. 
Logo após terminar o seu romance com Fulvia, Marcello conheceu Anna. Ele não fazia ideia que isso seria o início de um relacionamento turbulento, que o faria sofrer e a desfrutar de momentos de intensa felicidade, ao mesmo tempo. 
Logo depois, andando pela noite romana, ele se depara com uma belíssima jovem (Anna Padoan), que é interpretada pela lindíssima e sensual atriz francesa Mylène Demongeot.

Anna está tentando entrar em seu apartamento, mas está sem a chave, e neste momento o Conde ‘Casanova’ aproxima-se dela e começam a conversar. Ele a elogia, dizendo que ela é muito bonita, e consegue subir ao apartamento da jovem posteriormente. Sem hesitar, ele a seduz e os dois fazem amor logo na primeira noite em que se conheceram. 

Já neste primeiro encontro, o arrogante e esnobe Marcello demonstra uma total insensibilidade e frieza com a bela jovem, fazendo com que esta ficasse triste e chorasse. Anna percebe que não possui as virtudes que Marcello gostaria de encontrar em uma mulher, que são a inteligência, a simplicidade e a ingenuidade. 

Com o desenvolvimento do relacionamento, Marcello, que até então não demonstrava qualquer sentimento mais forte pelas mulheres que ele conquistava, acabará se apaixonando pela bela jovem, o que é uma experiência inédita em sua vida. 
A jovem e bela Anna adota um comportamento liberal em sua vida e não consegue ser fiel a ninguém. 
Anna é uma atriz que atua em filmes de aventura histórica (épicos) e Marcello vai atrás dela, oportunidade em que a vemos trabalhando sob a direção de Vittorio De Sica. Percebe-se que o talento da jovem como atriz não é dos maiores, mas a sua invejável beleza física garante o seu emprego. E nota-se também que há um clima muito bom entre Anna e o ator com quem ela contracena neste filme épico (Tony Meneghini). 

Gradualmente, o Conde ‘Casanova’ vai percebendo que a jovem pela qual se apaixonou também tem o costume de se envolver com outros homens, mesmo enquanto tem um romance com ele. A fidelidade, definitivamente, não é o ponto forte dela. Fulvia, inclusive, o tinha avisada a respeito do comportamento infiel de Anna, mas ele não lhe deu ouvidos. 

A primeira vez em que Marcello descobriu a respeito do comportamento infiel de Anna ocorreu quando ela foi participar das filmagens em uma cidade do litoral (Capri). Depois de um tempo afastados, ele decide ir até o local, para se encontrar com a jovem. 

Marcello a encontra e a convida para ir morar com ele em Roma, mas ela confessa que está tendo um romance com Tony já há uma semana e diz que não pretende terminar o relacionamento com o mesmo. 

Marcello fica arrasado. 
Marcello e Anna se entendem muito bem em seu primeiro encontro e acabam se beijando na noite romana. 
Antes mesmo de ficar sabendo do envolvimento de Anna com Tony, em um passeio com a participação do mesmo, de Anna e de Marcello, este último havia ficado deslocado, pois ela conversava e brincava com o ator durante todo o tempo, o que deixou Marcello bastante incomodado com a situação. 

Afinal, ele é que estava acostumado a agir desta maneira, comportando-se com as mulheres como se elas fossem meros instrumentos para a sua diversão, sendo que ele as usava e jogava fora quando se cansava delas. 

E agora a situação é inversa. 

Marcello conheceu uma mulher de comportamento livre, alegre, espontâneo e sensual e que não hesita em se envolver com outros homens quando se interessa pelos mesmos, mesmo que tal envolvimento não envolva uma paixão muito intensa. 
Assim, a jovem e bela Anna é, de certa maneira, a versão feminina de Marcello. 

Logo, a maneira de se comportar da bela Anna é semelhante à de Marcello antes deste conhecer essa linda jovem. Ela o trata do mesmo jeito, quase que com o mesmo desprezo, que ele tratava as mulheres com as quais se envolvia anteriormente. 
Já no primeiro encontro, Marcello e Anna passam a noite juntos e se amam. Mas a insensibilidade dele faz com que Anna fique triste e chore. 
Portanto, o nobre, empobrecido e insensível Marcello irá passar pelo mesmo tipo de situação a que submetia as mulheres que desprezava. Ele irá sentir na própria pele o que, antes, fazia aos outros (às outras, melhor dizendo). 

E tudo é muito mais humilhante para Marcello, porque a bela e jovem Anna é de origem humilde, enquanto que as mulheres pelas quais ele demonstrava desprezo eram da enriquecida burguesia italiana. 

Admitindo o relacionamento com o ator, Anna diz que eles deveriam se afastar por um tempo, pois ela não quer abandonar o homem com quem está se relacionando. 

Com isso, o perplexo e entristecido Marcello volta para Roma, sozinho. 

Neste momento, ele conhece outra bonita e sofisticada mulher (Eleonora). Marcello até chega a fazer um passeio com Eleonora, mas não consegue demonstrar interesse pela mesma, deixando-a frustrada. 
Anna é uma atriz e trabalha em um épico, no qual é dirigida por Vittorio De Sica.
Esse comportamento de Marcello já é um efeito claro da decepção que ele teve com Anna. Antes de conhecê-la, Marcello não hesitaria em se relacionar com Eleonora e descarta-la posteriormente, mas nem isso ele consegue fazer mais. 

Depois de voltar para Roma ele volta a procurar por Anna, a quem não consegue esquecer, e os dois retomam o relacionamento, desfrutando de momentos de plena felicidade, pelo menos por alguns meses. 

Mas ela novamente sai para viajar, a fim de visitar a família, que mora em Treviso. 

Marcello pensa que a jovem loira ainda está fora de Roma, mas quando vai a uma festa, na qual estão presentes os seus amigos e amigas da rica burguesia romana, ele fica sabendo que Anna já voltou para a cidade. A informação veio de amigas ricas de Marcello, que mal disfarçam o desprezo que sentem pela proletária Anna. 

Marcello demonstra desconfiança com relação a essa informação, pois ele tinha certeza de que Anna o avisaria quando chegasse a Roma e telefona para o apartamento dela, para conferir a veracidade do que lhe disseram, mas ela não atende. Ele vai até o local, entra em um mercado em frente, onde ele vê um jovem (Peppino Barlacchi) comprando bebidas e cigarro. 
Marcello volta a encontrar Fulvia, que não consegue esquecê-lo. Marcello oscila entre ter um relacionamento estável, mas sem se apaixonar, com mulheres de famílias ricas, como Fulvia e Eleonora, ou viver um romance intenso e turbulento com a humilde, mas bela e instável Anna. 
Desconfiado, ele o acompanha e entra no apartamento de Anna, junto com o jovem, pois tem a chave do mesmo. Quando ela sai do banho, ele a questiona sobre quando ela havia retornado para Roma. 

O jovem vai embora e Anna admite para Marcello as várias oportunidades em que o traiu e com diferentes homens. Com isso, ele tem um intenso ataque de ciúmes, chegando a agredir a bela Anna, pois ele não se conforma com o fato dela jamais lhe ser fiel. 

Desta maneira, ele decide abandonar a bela jovem, pois percebe que o seu relacionamento com a Anna é uma permanente fonte de sofrimento, dizendo para a mesma que a relação deles ainda acabará mal. 

Com isso, Marcello decide iniciar um relacionamento com Eleonora, filha de um homem (o Engenheiro Curtatoni) que teve um caso com Anna quando o seu relacionamento com a bela jovem ainda estava no início. 
Anna chora. Ela traiu Marcello com um ator e o nobre empobrecido preferiu se afastar da bela loira. Marcello a amava intensamente, mas sempre acabava se decepcionando com o comportamento infiel de Anna. 
Marcello e Eleonora já se conheciam, mas anteriormente ele não quis ter nenhum envolvimento com ela, embora esta o desejasse. 

Ele age desta maneira embora não seja apaixonado por Eleonora, mas sabe que ao lado da sofisticada romana ele não passará pelas agruras e pelo sofrimento que tem ao lado da jovem, bela, infiel e impulsiva Anna. 

Mesmo sem que esteja apaixonado por Eleonora, eles chegam a ficar noivos e ele volta a frequentar os ambientes sofisticados da burguesia romana, onde volta a ser bem recebido. 

No entanto, pouco tempo antes do casamento ele reencontra Anna, à noite, na rua, sob uma forte chuva e sendo assediada por dois homens. Marcello a reconhece e lhe oferece uma carona. Com isso, a velha paixão por Anna volta a ficar muito intensa e 

Marcello toma a decisão de anular o noivado e reiniciar o romance com a belíssima jovem.
Marcello novamente encerra o relacionamento, sempre turbulento e que o faz sofrer, que tinha com a jovem e sensual Anna. Com esta bela jovem ele está, de certa maneira, condenado a viver momentos extremos, marcados por grande felicidade e por um grande sofrimento. 
Durante o filme isso irá acontecer em várias oportunidades: Marcello irá dar uma nova oportunidade para a bela Anna, acreditando que ela irá mudar de comportamento e que deixará de se envolver com outros homens, mas isso nunca acontecerá. 

Eles chegam a morar juntos, a passear na praia, a se amar intensamente e tudo indica que desta vez tudo dará certo entre os dois.

Mas não demora muito para que Marcello descubra que está sendo traído novamente pela insubmissa e incontrolável Anna e, desta vez, isso acontece com um músico (Nello D’Amore) que faz parte de um grupo teatral itinerante. 

Desta vez, Marcello não suportará a dor e a humilhação que a bela jovem lhe impingiu e decidirá por encerrar o relacionamento com Anna de maneira definitiva. 

Esta reconhece, enfim, que não consegue mudar o seu comportamento, que aquela é a sua natureza, mas diz que o ama e que deseja ficar com ele. 
Marcello retoma o romance com a bela e infiel Anna. Eles foram felizes por um tempo, mas a natureza instável e infiel de Anna impedia que isso durasse muito tempo.
E Marcello acaba por deixar Anna, talvez por perceber que se enxerga nela. Marcello sabe que Anna se comporta da mesma maneira, insensível e egoísta, que ele, quando descartava as outras mulheres sem hesitar. 

Portanto, ele percebe que se insistir em continuar vivendo com Anna essa irá decepcioná-lo sempre. Ela não irá mudar. Aquela é a natureza dela.

Assim, Marcello se mantém irredutível, pega as coisas dela, coloca na mala e a leva embora, para o teatro onde o grupo do qual ela fazia parte estava ensaiando, como que mostrando que aquela é a vida que a espera. Aquele é o futuro dela. 

Desesperada, chorando, Anna corre atrás de Marcello, mas ele já foi embora. 

Sozinha, ela entra no teatro, para o futuro que a espera. 

Fim. 
Marcello leva Anna até o teatro, onde termina o relacionamento turbulento com a bela e infiel jovem. A solidão os espera... 

Informações Adicionais:

Título: Un Amore a Roma;
Diretor: Dino Risi;
Roteiro: Ennio Flaiano (baseado em romance de Ercole Patti);
Países de Produção: Itália, França e Alemanha; Ano de Produção: 1960;
Duração: 103 minutos; Gênero: Drama; Romance;
Fotografia: Mario Montuori; Música: Carlo Rustichelli;
Elenco: Mylène Demongeot (Anna Padoan); Peter Baldwin (Marcello Cenni); Elsa Martinelli (Fulvia); Claudio Gora (Engenheiro Curtatoni); Maria Perschy (Eleonora Curtatoni); Armando Romeo (Nello D'Amore); Umberto Orsini (Peppino Barlacchi); Jacques Sernas (Tony Meneghini); Anna Glori (Margherita); Fanfulla (Moreno); Anne White (Yvette). 

Vídeo - Trecho do Filme: